Aplicativos religiosos baseados em inteligência artificial estão se tornando uma tendência global e já atraem dezenas de milhões de usuários. Entre os mais populares está o Bible Chat, desenvolvido por uma startup da Romênia, que recentemente levantou US$ 14 milhões em investimentos e ultrapassou a marca de 30 milhões de downloads, consolidando-se como um dos apps de fé de crescimento mais rápido no mundo.
Outro destaque é o Hallow, aplicativo de orações que chegou ao topo da App Store nos Estados Unidos em 2024, refletindo a força desse segmento no mercado digital. Já iniciativas como ChatWithGod.ai buscam oferecer experiências ainda mais personalizadas, apresentando respostas em tom pastoral ou espiritual.
Segundo reportagem do New York Times citada pelo TechCrunch, líderes religiosos enxergam um potencial positivo no fenômeno. O rabino britânico Jonathan Romain avalia que essas ferramentas podem servir como “porta de entrada para a fé” para jovens que nunca frequentaram igrejas ou sinagogas. Para muitos usuários, em vez de peregrinações ou encontros presenciais, a busca por conselhos espirituais acontece agora em tempo real, via smartphone.
Apesar do entusiasmo, especialistas alertam para riscos. A professora Heidi Campbell, pesquisadora de tecnologia e religião na Texas A&M, ressalta que os algoritmos “não exercem discernimento espiritual, apenas reorganizam dados e padrões estatísticos”. Um estudo conduzido pela Universidade North-West, na África do Sul, também concluiu que alguns chatbots chegam a “se apresentar como Jesus”, mas frequentemente oferecem respostas que se afastam da tradição bíblica, levantando preocupações sobre manipulação ou viés comercial.
O fundador do Hallow, Alex Jones, concorda que os aplicativos podem apoiar a espiritualidade, mas adverte: “Eles não devem substituir a conexão humana, porque do ponto de vista da fé, a inteligência artificial não tem alma”.
No Brasil, onde a adesão a aplicativos religiosos é alta, esse movimento pode redefinir a forma como a espiritualidade se manifesta, mesclando devoção autêntica com recursos digitais. Especialistas sugerem que reguladores e comunidades religiosas discutam diretrizes éticas para garantir transparência no funcionamento desses sistemas e evitar que algoritmos se tornem falsos substitutos da fé.
O avanço rápido desses “chatbots de Deus” abre espaço para uma reflexão: até que ponto a tecnologia pode ajudar a aproximar as pessoas da espiritualidade — e quando começa a transformá-la em uma ilusão algorítmica?