A extração excessiva e descontrolada de água em Moçambique, impulsionada por uma competição crescente entre operadores, está a colocar em risco a segurança hídrica e a disponibilidade de água potável para a população.
Uma investigação do jornalismo da TV Miramar revela o impacto da luta pela água, travada por operadores artesanais, privados e outros intervenientes, que resulta na contaminação generalizada dos lençóis freáticos.
A Corrida ao “Ouro Azul”
O crescimento urbano acelerado e as alterações climáticas, que trazem secas devastadoras, pressionam os recursos hídricos. Em resposta à crescente procura, o negócio de perfuração de furos de água tornou-se altamente competitivo, com panfletos e anúncios nas redes sociais a promoverem serviços a partir de 45.000 meticais. Muitos cidadãos, como Dona Quitéria, do bairro Intaka, na Matola, optam por estes furos artesanais para escapar às altas faturas dos fornecedores licenciados, que podiam chegar aos 5.000 meticais. “Decidi preparar dinheiro e fazer um furo em casa. Agora só compro energia para ter água”, relata.
Água Contaminada e Riscos para a Saúde
Apesar de ser uma solução mais económica, esta prática acarreta graves perigos. Análises laboratoriais revelam que mais de 50% da água extraída destes furos está imprópria para consumo humano. A principal fonte de contaminação são as fossas séticas, devido à proximidade com as latrinas e à pouca profundidade dos furos. Como resultado, a água apresenta elevados níveis de fezes e nitratos.
O consumo desta água contaminada está diretamente ligado ao aumento de doenças. O último relatório da direção municipal de saúde da cidade de Maputo aponta para um aumento no número de casos de doenças diarreicas. “A água contaminada com fezes pode causar bilharziose, diarreias e também cólera”, alerta o representante do sector da saúde.
Falta de Fiscalização e Apelos ao Governo
Os fornecedores licenciados, queixam-se da concorrência desleal dos operadores ilegais, que não têm custos regulamentares e conseguem baixar os preços. “O nosso apelo é a intervenção do governo para fazer a fiscalização e arranjarmos soluções”, afirma um dos operadores licenciados.
A entidade reguladora, ARA-Sul, confirma a contaminação e afirma estar a realizar campanhas de sensibilização e estudos para identificar as zonas de recarga dos aquíferos, de forma a protegê-las da poluição. Contudo, o desafio de garantir água de qualidade e em quantidade suficiente para as futuras gerações permanece, deixando a saúde de milhares de pessoas em risco.