LUSAKA, ZÂMBIA – O Governo da Zâmbia endureceu a sua posição diplomática frente a Washington. Numa declaração oficial feita na segunda-feira (04 de Maio de 2026), o país manifestou-se contra a tentativa dos Estados Unidos de condicionar o financiamento na área da saúde ao acesso privilegiado aos recursos minerais críticos zambianos. Esta é a primeira vez que Lusaka detalha publicamente os motivos do impasse nas negociações de dois acordos bilaterais estratégicos.
O Pacote de 2 Mil Milhões de Dólares e a Questão da Privacidade
De acordo com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Zâmbia, Mulambo Haimbe, o governo norte-americano — sob a actual administração de Donald Trump — propôs um pacote de apoio de 2 mil milhões de dólares ao longo dos próximos cinco anos.
No entanto, o financiamento de saúde traz “letras miúdas” preocupantes. Haimbe revelou que os termos relativos à partilha de dados solicitados por Washington podem violar os direitos de privacidade dos cidadãos da Zâmbia. Embora o ministro não tenha especificado que tipo de dados clínicos ou populacionais foram exigidos, a protecção da informação nacional foi colocada como uma linha vermelha.
O Impasse dos Minerais: “Tratamento Preferencial”
Paralelamente, a Zâmbia levantou objecções severas ao conteúdo de um segundo acordo focado em minerais críticos (essenciais para baterias e tecnologias verdes). O ministro sublinhou que o país é relutante em aceitar os termos que impõem um tratamento preferencial para empresas norte-americanas no sector extractivo, o que poderia limitar a concorrência e a soberania sobre os seus próprios recursos.
A “Cláusula de Contingência”
A maior crítica de Lusaka reside na estratégia de negociação de Washington, que tenta fundir os dois sectores.
“Uma preocupação central é a vinculação dos acordos, de tal forma que a conclusão do pacto sobre minerais críticos é apresentada como condição obrigatória para a assinatura do memorando de entendimento sobre a saúde”, afirmou Haimbe em comunicado.
O governo zambiano defende que cada dossier deve ser avaliado pelos seus próprios méritos, de forma independente.
Contexto Regional e Resposta dos EUA
A estratégia de Washington faz parte de uma nova abordagem de ajuda externa da administração Trump, que procura garantir cadeias de suprimentos globais em troca de assistência financeira. A Zâmbia não é o primeiro país a resistir: Gana e Zimbabué já rejeitaram propostas semelhantes anteriormente, citando igualmente preocupações com a soberania de dados.
Questionado sobre o impasse, o Departamento de Estado dos EUA limitou-se a informar que não discute publicamente detalhes de negociações bilaterais em curso. Especialistas em saúde pública já tinham alertado para os riscos de transformar a ajuda humanitária numa moeda de troca por recursos minerais.