A activista social e antiga Primeira-Dama de Moçambique, Graça Machel, criticou a recorrente prática de contratação de empresas e especialistas estrangeiros em concursos públicos para a construção de infra-estruturas financiadas por parceiros internacionais, questionando ainda a fraca participação de engenheiros moçambicanos em grandes projectos nacionais.
Machel levantou dúvidas sobre a razão pela qual a maioria dos concursos acaba por ser vencida por empresas estrangeiras.
“Por que razão todos os concursos têm de ser ganhos por estrangeiros? Aqueles concursos são pagos pelo Banco Mundial e essa instituição financeira não está a oferecer-nos o dinheiro. Ela está a emprestar e nós vamos pagar”, afirmou.
A antiga ministra da Educação (1975) sublinhou que o país acaba por assumir encargos elevados ao recorrer a empresas externas para executar projectos financiados por empréstimos internacionais.
“Neste momento, pagamos a estrangeiros para virem construir as estradas e pontes por nós, pagamos ao banco e pagamos aos estrangeiros. Mas quantos engenheiros nós temos e de que especialidades?”, questionou.
As declarações foram feitas durante uma aula inaugural na Universidade Púnguè, na província de Manica, onde defendeu que as instituições de ensino superior devem desempenhar um papel central na formação de quadros capazes de liderar projectos estruturantes no país.
Segundo Graça Machel, é necessário investir na produção interna de conhecimento e competências para que Moçambique possa construir as suas próprias infra-estruturas.
“Quem constrói as nossas estradas e pontes em Moçambique são os estrangeiros. Isso significa que esse saber fazer, saber transformar, deve sair das nossas universidades e assim desenvolver as nossas cidades, e evitar que passemos fome como se fosse normal”, defendeu.
A activista acrescentou ainda que o desenvolvimento nacional depende da capacidade de utilização do conhecimento científico para enfrentar desafios económicos e sociais, incluindo a segurança alimentar. Alertou também para os desafios no sector da educação, referindo que cerca de 31% dos jovens são analfabetos, 25% não concluíram nenhum nível de ensino, apenas 18% vão além do ensino primário e apenas 1,5% chegam ao ensino superior.
No ano passado, a Federação Moçambicana de Empreiteiros (FME) já havia defendido o relaxamento de algumas exigências em concursos públicos financiados pelo Banco Mundial, argumentando que os requisitos actuais dificultam a participação de empresas nacionais em grandes projectos.
O presidente da FME, Bento Machaíla, explicou que um dos principais obstáculos está ligado às exigências de capacidade financeira, como a necessidade de demonstrar faturação elevada, o que limita a concorrência local e favorece empresas estrangeiras, cujos lucros acabam por sair do país.
Para responder a estes desafios, em Julho de 2025 o Governo lançou a Administração Nacional de Obras Públicas (ANOP, IP), uma nova entidade pública responsável pela gestão e fiscalização de infra-estruturas sociais.
Segundo o Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, a criação da ANOP representa uma nova fase na construção do futuro de Moçambique, com maior rigor técnico, inclusão e resiliência nos investimentos públicos, especialmente nas áreas da educação, saúde, justiça, cultura e protecção social.