Moçambique Torna-se País Africano de Maior Risco de Crédito Soberano – Times de Todos

Moçambique tornou-se o país africano com maior risco de crédito soberano, superando Senegal, depois que o spread dos seus títulos em moeda estrangeira frente aos títulos do Tesouro dos EUA atingiu 1.473 pontos-base, segundo um índice da JPMorgan.

De acordo com a Bloomberg, esse nível situa Moçambique muito acima do limiar de 1.000 pontos considerado pelos mercados como indicativo de “distress”, refletindo a crescente percepção de risco entre investidores internacionais. Senegal registrou um spread de 1.423 pontos, posicionando-se abaixo de Moçambique pela primeira vez desde novembro, revertendo a tendência dos últimos meses.

O aumento da pressão sobre a dívida moçambicana ocorre em meio ao conflito no Irã, que impacta fortemente economias dependentes de importação de energia. Esse cenário agrava vulnerabilidades estruturais nas contas públicas, já expostas a limitações de liquidez externa.

No mercado secundário, o eurobônus de Moçambique em dólares com vencimento em 2031 manteve trajetória de queda, registrando 13 sessões consecutivas de desvalorização. O título de US$ 900 milhões perdeu cerca de 11 centavos desde o início do conflito, sendo negociado a US$ 0,7464 por dólar em Londres, com yield de 16,16%, afastando o país do acesso a mercados internacionais de financiamento. Em média, o prêmio dos eurobônus africanos sobre Treasuries ficou em 387 pontos-base — o mais alto em seis meses —, subindo 37 pontos apenas em março, enquanto o pior desempenho foi o de Moçambique, com aumento superior a 400 pontos no período.

Apesar de abrigar projetos de gás natural avaliados em cerca de US$ 50 bilhões, sucessivos atrasos limitaram o impacto positivo esperado nas contas externas, mantendo a dependência de importações de combustíveis. Analistas de mercado ressaltam que a atratividade de investimentos na dívida moçambicana depende fortemente da concretização futura das exportações de gás liquefeito.

A S&P alertou ainda para possíveis restrições de acesso a divisas, influenciadas pelo contexto internacional e pelo fechamento de uma unidade industrial no setor de alumínio, considerando que as trocas de dívida doméstica em curso possuem características semelhantes a um cenário de default. A agência, entretanto, reconhece que Moçambique ainda pode honrar pagamentos de eurobônus, dependendo do avanço concreto nos projetos de gás. Essa deterioração do risco externo está alinhada com avaliações recentes de instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial, que classificou a dívida pública do país como “insustentável e em default”, destacando vulnerabilidades fiscais crescentes.

Segundo o Mozambique Economic Update, a dívida pública — incluindo garantias estatais — atingiu 91,4% do PIB no final de 2024. Os atrasos no serviço da dívida somaram 1,3% do PIB até dezembro de 2025, evidenciando dificuldades concretas no cumprimento das obrigações financeiras.

O relatório também destaca a crescente dependência de financiamento junto ao Banco de Moçambique, que chegou a cerca de 6% do PIB no final de 2025, frente a 1,5% dois anos antes, sem quitação do principal em aberto no período recente.

Internamente, a dívida doméstica representa cerca de 29% da dívida pública total, mas responde por aproximadamente 76% dos encargos de juros, pressionada por taxas elevadas e predominância de instrumentos de curto prazo, com taxa média de 12,6%. A confiança dos investidores domésticos enfraqueceu, refletida na menor procura por títulos do Tesouro, atrasos em pagamentos e maior percepção de risco soberano. Em 2025, emissões domésticas tiveram como objetivo principal refinanciar dívidas existentes, sem aliviar a pressão estrutural.

O Banco Mundial alerta que a dívida doméstica é uma vulnerabilidade crítica devido à sua maturidade curta, concentração entre poucos credores e uso para financiar despesas correntes, elevando a pressão sobre o Tesouro a partir de 2026. Paralelamente, o Banco de Moçambique destacou impactos negativos crescentes dessa dívida no funcionamento do mercado financeiro e na evolução das taxas de juros.

O acúmulo de atrasos a fornecedores e credores, aliado a dificuldades na emissão de novos títulos, evidencia restrições de liquidez cada vez mais severas, em um contexto de limitada margem de manobra fiscal.

Fonte: 360 Mozambique/ Diário Econômico

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