ONU Defende Via Negocial para Travar Conflito Ininterrupto em Cabo Delgado – Times de Todos

A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que o fim do conflito na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, dificilmente será alcançado apenas através de uma vitória armada sobre os grupos extremistas. Para solucionar a crise que vigora desde 2017, a entidade sublinha a urgência de se avançar para negociações.

Esta perspetiva integra o relatório divulgado na passada sexta-feira por Ben Saul, Relator Especial da ONU focado na proteção dos direitos humanos no combate ao terrorismo. O documento resulta das avaliações feitas durante a sua visita a Moçambique, que decorreu entre 4 e 14 de Agosto.

Escalada de Violência e Táticas Militares

O relatório sublinha que o último ano foi marcado por um agravamento na frequência, dimensão e severidade das ofensivas contra a população civil. O conflito, que tem ligações ao grupo Estado Islâmico, continua a vitimar tanto civis como membros das forças de segurança, recorrendo a táticas de terror extremo, como decapitações.

No que toca à resposta armada, as forças de Moçambique contam, desde 2021, com o apoio de contingentes do Ruanda e com o suporte da União Europeia. Contudo, Ben Saul observa que a atual abordagem militar se baseia numa tática de “defesa ofensiva” em vez de uma perseguição direta e contínua aos insurgentes.

  • O Risco da Estratégia: O especialista adverte que, embora esta postura possa refrear temporariamente os combates, oferece aos grupos armados o tempo e o espaço necessários para se reestruturarem e voltarem a atacar.

O Custo Humano e Social (2017 a meados de 2026)

Citando dados da organização ACLED (especializada na monitorização de conflitos globais), o relatório desenha o retrato de uma grave crise humanitária:

  • Vítimas Mortais: Registaram-se 6.632 mortes, das quais 2.772 eram civis.
  • Deslocados: Cerca de 1,5 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas terras.
  • Crise Humanitária: Estima-se que 1,7 milhões de pessoas dependam de assistência humanitária no decurso do ano de 2026.

Além dos óbitos e do êxodo populacional, a insurgência tem destruído propriedades, cortado o acesso a serviços essenciais, desfeito famílias e aniquilado os meios de subsistência locais.

O Peso Económico da Região

O cenário de guerra desenrola-se numa zona de extrema importância para a economia de Moçambique. Cabo Delgado alberga vastas reservas de gás natural, um recurso que motivou a entrada de investimentos massivos por parte de gigantes energéticas globais, nomeadamente a norte-americana ExxonMobil, a italiana ENI e a francesa TotalEnergies.

Nota sobre o Relatório: Importa clarificar que os especialistas independentes, como Ben Saul, recebem o seu mandato diretamente do Conselho de Direitos Humanos para investigar e relatar situações específicas. No entanto, as suas conclusões não constituem declarações oficiais em nome de toda a estrutura das Nações Unidas.

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