Vídeos amadores mostram interrogatório violento de um dos detidos; autoridades investigam possível célula terrorista ativa na capital provincial
A cidade de Pemba, até então considerada uma das zonas mais seguras da província de Cabo Delgado, vive um momento de tensão após a detenção de dois homens suspeitos de ligação aos grupos terroristas que desde 2017 semeiam o medo e a violência no norte de Moçambique. Os indivíduos teriam tentado infiltrar-se na Força Naval das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), segundo uma reportagem investigativa da Zumbo FM Notícias.
O caso veio a público após a circulação de vídeos amadores nas redes sociais, que mostram um dos suspeitos a ser interrogado sob tortura por militares. Nas imagens, o homem, parcialmente vestido com um uniforme da Marinha, aparece amarrado a uma árvore no que parece ser o pátio de uma base militar, enquanto é questionado de forma agressiva sobre a origem do uniforme e os seus supostos cúmplices.
Durante o interrogatório, o suspeito menciona o nome de um alegado sargento da prisão de Mieze, identificado como Angelino, a quem atribui a entrega do uniforme. Fontes militares, porém, negam qualquer envolvimento de elementos das forças de segurança, afirmando que o fardamento teria sido obtido durante ataques anteriores de insurgentes em outros distritos da província.
As investigações preliminares indicam que o homem foi capturado no final de setembro, nas imediações do porto de Pemba, onde realizava supostas ações de reconhecimento. Sob interrogatório, teria admitido a existência de outros membros infiltrados na cidade, que vivem discretamente em bairros residenciais, alugando casas e recebendo comida pronta para evitar exposição pública.
“Ele confessou que há mais infiltrados em Pemba, que vivem em casas arrendadas e raramente saem. A comida é entregue por pessoas contratadas para esse fim”, revelou uma fonte ligada à operação.
Apesar das confissões, há divergências sobre a real identidade do detido. Alguns militares asseguram que o homem seria apenas um ladrão comum, detido por engano e posteriormente libertado. O episódio levantou questões sobre os métodos de interrogatório e o respeito pelos direitos humanos, num contexto em que a fronteira entre criminalidade e insurgência se torna cada vez mais difusa.
Fontes do setor da justiça confirmaram que os dois suspeitos foram detidos na 1.ª Esquadra da PRM em Pemba e, posteriormente, transferidos para a cadeia de Mieze, no distrito de Metuge, a cerca de 20 quilómetros da cidade. Um dos homens é natural do Ibo, com histórico de passagem por Mocímboa da Praia, enquanto o outro é residente em Pemba.
A Zumbo FM Notícias tentou obter uma posição oficial das autoridades militares. Contudo, o Capitão-de-Mar-e-Guerra Carlos Castanheira Cossa, que recentemente participou em Pemba de uma formação sobre direitos humanos e proteção de crianças em conflitos armados, recusou comentar o caso, alegando não estar autorizado a prestar declarações à imprensa.
Um investigador local afirmou que, embora haja suspeitas de infiltrações, as probabilidades de um ataque em Pemba são reduzidas, devido às limitações logísticas e à forte vigilância militar na capital provincial.
Ainda assim, o caso gerou alarme entre a população e as forças de segurança, reacendendo o debate sobre a presença de células terroristas em áreas urbanas e a vulnerabilidade das instituições de defesa.
A descoberta de possíveis infiltrados em Pemba — cidade que serve como centro logístico das operações militares em Cabo Delgado — indica que a ameaça extremista pode estar mais próxima do que se imagina.
Desde o início da insurgência, em 2017, mais de 5 mil pessoas morreram e cerca de 1,3 milhões foram deslocadas, de acordo com dados das Nações Unidas.