Uma investigação recente trouxe à luz uma prática alarmante no Zimbabwe, país vizinho das províncias moçambicanas de Gaza, Manica e Tete: criadores de aves estão a alimentar os seus frangos com medicamentos antirretrovirais (ARVs). A tática, que visa o aumento acelerado dos lucros, coloca a saúde dos consumidores em perigo e ameaça a eficácia dos tratamentos contra o HIV.
Movidos pela promessa de ganhos rápidos, os avicultores recorrem ao mercado negro para adquirir ARVs destinados a pacientes humanos. A crença no sector é de que estes fármacos funcionam como estimulantes de crescimento e escudos contra doenças, resultando num ciclo de abate mais curto e numa menor taxa de mortalidade das aves. Contudo, a população consome esta carne sem qualquer conhecimento do perigo a que está exposta.
Os dados foram levantados pelo Projecto de Jornalismo de Prestação de Contas da África Austral (SA AJP), que ouviu dois profissionais do sector avícola na região de Harare. Embora a inclusão de ARVs na ração animal já tenha sido reportada em países como Uganda e Tanzânia, a dimensão deste fenómeno no Zimbabwe era, até agora, pouco conhecida, suscitando receios sobre a possível resistência medicamentosa num país com altas taxas de seroprevalência.
O Esquema Clandestino: O Caso de “Jane”
Uma das fontes ouvidas, identificada pelo nome fictício de Jane para proteger a sua identidade, gere um aviário oculto no bairro de Waterfalls, em Harare. Por trás dos muros altos de uma residência aparentemente comum, Jane confessou misturar os fármacos na água e na ração das aves.
Os medicamentos são obtidos através de um esquema ilícito. A criadora explicou que compra os ARVs a um profissional de saúde de um hospital local, através de uma rede de vendedores de rua. O ponto de recolha ocorre no terminal rodoviário de Copacabana, no centro de Harare, onde traficantes e compradores utilizam códigos secretos (que mudam frequentemente) para concretizar as transacções sem levantar suspeitas.
A motivação inicial de Jane não foi o crescimento artificial, mas sim a sobrevivência do negócio. A doença de Newcastle estava a dizimar os seus bandos, comprometendo o pagamento das propinas escolares da família. Após partilhar as suas frustrações num seminário sobre avicultura, um colega ofereceu-lhe a “solução” por 100 dólares, pagos em duas tranches.
O produto fornecido foi o TLD — um comprimido que combina dolutegravir, lamivudina e fumarato de tenofovir desoproxila. Segundo o programa de apoio Zvandiri, este é o tratamento de primeira linha prescrito a adolescentes e adultos seropositivos no país.
Os resultados na produção foram drásticos:
- A mortalidade das aves caiu significativamente.
- O tempo de crescimento para abate reduziu de seis para apenas quatro semanas.
- A produção de Jane saltou de 200 para 10.000 frangos por ciclo num espaço de dois anos.
Riscos Médicos e Impacto no Combate ao HIV
Do ponto de vista legal, a Lei de Controlo de Medicamentos e Substâncias Afins do Zimbabwe proíbe estritamente a administração não autorizada de fármacos humanos em animais de consumo.
Daniel Zulu, farmacêutico e ex-diretor do Departamento de Toxicologia e Clínica do Laboratório de Análises do Governo, alerta para a gravidade da situação. O especialista defende que a ingestão contínua de resíduos de ARVs através da carne de frango pode diminuir a eficácia da terapia antirretroviral em pacientes que vivem com o vírus. Esta é uma preocupação colossal num país onde cerca de 1,2 milhão dos 1,3 milhão de seropositivos dependem destes medicamentos, de acordo com o Ministério da Saúde e Assistência à Infância.
A situação agrava-se com o desvio destes fármacos vitais para o mercado paralelo por funcionários corruptos. Este desvio ocorre num período crítico, marcado pela interrupção de serviços e distribuição de medicamentos após o corte de financiamento da USAID (Agência Norte-americana para o Desenvolvimento Internacional), decretado durante a administração de Donald Trump. Além do risco para pacientes com HIV, Zulu sublinha que consumidores saudáveis também enfrentam potenciais efeitos tóxicos a longo prazo.
Confirmação Oficial e Alterações na Carne
As declarações de Jane encontram eco no testemunho de um consultor agrícola do Ministério de Terras, Agricultura, Pesca, Água e Desenvolvimento Rural. Falando sob anonimato, o funcionário público confirmou que o uso de ARVs como promotores de crescimento é uma prática generalizada que ele encontra frequentemente durante as suas inspecções a aviários por todo o país.
Apesar das suas tentativas de alertar os produtores sobre os riscos associados ao uso de medicamentos não prescritos, a busca pelo lucro fala mais alto. O consultor revelou ainda que a carne destas aves apresenta características anómalas:
- Aparência: A carne crua exibe uma coloração avermelhada incomum.
- Paladar: O sabor após a cozedura é insípido, contrastando fortemente com o sabor de um frango criado ao ar livre ou sem aditivos.
Um Perigoso Cocktail de Fármacos
A ameaça vai além dos ARVs. Brian Fungai Chikodze, do Conselho de Cirurgiões Veterinários do Zimbabwe, adverte que os antirretrovirais são apenas uma fracção de um perigoso “cocktail” químico administrado às aves, que inclui também vários agentes antimicrobianos (como antifúngicos, antivirais, antibióticos e antiparasitários).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta repetidamente que o abuso de antimicrobianos na agropecuária é um dos principais motores da resistência antimicrobiana. Este fenómeno faz com que bactérias e outros patógenos sofram mutações, tornando infecções comuns extremamente difíceis de tratar, afectando de forma letal tanto a saúde humana quanto a animal.