A agência internacional de notação financeira Fitch Ratings decidiu manter o ‘rating’ soberano de Moçambique em ‘CC’, o segundo nível mais baixo da sua escala de risco de crédito. A instituição considera provável uma reestruturação da dívida pública moçambicana e alerta para um risco elevado de incumprimento caso o país não consiga garantir um novo programa de apoio financeiro com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Segundo a análise divulgada esta sexta-feira, 24 de Julho de 2026, a Fitch explica que a classificação ‘CC’ reflecte a sua avaliação de que “alguma forma de incumprimento parece provável dentro do horizonte temporal da análise”.
A agência recorda que, em Abril deste ano, reduziu a classificação de Moçambique de ‘CCC’ para ‘CC’, agravando a percepção internacional sobre o risco de crédito do país.
Possível reestruturação do Eurobond
A manutenção da nota é justificada principalmente pela possibilidade de reestruturação da única obrigação soberana internacional de Moçambique, o Eurobond, tendo em conta a avaliação do FMI de que a dívida pública permanece insustentável na actual trajectória das políticas económicas.
A Fitch considera que, devido à necessidade de restaurar a sustentabilidade financeira do país e ao compromisso demonstrado pelas autoridades moçambicanas em procurar um novo programa com o FMI, uma eventual reestruturação do Eurobond poderá fazer parte do processo.
“Consideramos provável que uma reestruturação do único Eurobond faça parte de qualquer processo de restauração da sustentabilidade da dívida”, afirmou a agência.
Os analistas acrescentaram que qualquer alteração significativa nas condições da dívida comercial, incluindo o prolongamento dos prazos de pagamento, poderá ser considerada uma operação de troca de dívida em dificuldades.
Acordo com FMI previsto para 2027
Sobre as negociações entre o Governo moçambicano e o FMI, a Fitch admite que poderá haver um entendimento no início de 2027, mas alerta para riscos importantes durante a implementação do eventual programa.
“A Fitch espera um acordo com o FMI no início de 2027, mas considera significativos os riscos de implementação, dada a dimensão provável do ajustamento orçamental exigido e a sensibilidade social e política das reformas da massa salarial e das medidas de flexibilidade cambial”, refere a análise.
A agência alerta ainda que, caso Moçambique não consiga alcançar um novo programa com o FMI ou não cumpra as condições associadas, poderá haver um aumento do risco de incumprimento.
“Caso Moçambique não consiga garantir um novo programa do FMI ou não consiga cumprir as respectivas condições, vemos um risco acrescido de um evento de incumprimento”, destacou a Fitch.
Pressões sobre o financiamento público
A Fitch considera que Moçambique continua a enfrentar fortes restrições no acesso ao financiamento. A agência prevê que o Governo dependa, em 2026, de operações internas de troca de dívida e do recurso ao crédito do Banco Central.
Segundo a instituição, os bancos comerciais nacionais “não mostram apetite para um novo crédito líquido ao soberano”.
Entre os factores de pressão financeira, a Fitch destacou também o pagamento antecipado de 701,4 milhões de dólares norte-americanos ao FMI, realizado em Março através do Banco Central, operação que classificou como uma forma de financiamento quase monetário ao Estado.
Défice orçamental e desafios económicos
A agência prevê que o défice orçamental de Moçambique aumente para 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, num cenário marcado pela acumulação de atrasos nos pagamentos internos e externos.
A Fitch acrescenta que os custos com salários da função pública e os encargos com juros consomem cerca de dois terços da despesa pública, reduzindo a capacidade do Estado para realizar investimentos.
A previsão é que o investimento público recue para 4,1% do PIB em 2026, contra os anteriores 4,7%.
Apesar dos desafios, a agência reconhece que a economia moçambicana poderá beneficiar do avanço dos grandes projectos de gás natural na Bacia do Rovuma. Contudo, mantém reservas quanto à capacidade do país para superar, no curto prazo, as actuais limitações financeiras.
Fonte: Lusa