Um ano após o desaparecimento de Vitano Caetano Singano, presidente do partido Revolução Democrática (RD), a família, dirigentes do partido e organizações da sociedade civil afirmam continuar sem respostas sobre o seu paradeiro e sobre as circunstâncias em que ocorreu o desaparecimento.
Desde 2 de julho de 2025, data em que Vitano Singano foi visto pela última vez, familiares, membros da Revolução Democrática e vários cidadãos têm solicitado esclarecimentos às autoridades competentes. Contudo, até julho de 2026, não foram divulgados resultados públicos das investigações nem apresentada qualquer explicação oficial sobre o destino do dirigente político.
As informações constam de uma análise divulgada pela Plataforma para Democracia (DECIDE), elaborada com base em entrevistas realizadas pela organização, depoimentos da família, informações da direção da Revolução Democrática e notícias publicadas por órgãos de comunicação social.
Quem é Vitano Singano?
Vitano Caetano Singano iniciou a sua trajetória política como membro da RENAMO e, posteriormente, fundou o partido Revolução Democrática (RD), do qual assumiu a presidência.
Ao longo da sua atividade política destacou-se pelas posições críticas em relação à governação, ao combate à corrupção, à transparência, à descentralização do poder e às reformas institucionais, conquistando apoio sobretudo entre jovens, ativistas e cidadãos favoráveis à renovação do sistema político.
Segundo a Plataforma DECIDE, o desaparecimento do dirigente transformou um caso inicialmente local num assunto de interesse nacional, acompanhado por organizações da sociedade civil e pelos meios de comunicação social.
Circunstâncias do desaparecimento
Segundo informações divulgadas pela família, pelo advogado Sérgio Matsinhe e por dirigentes da Revolução Democrática, Vitano Singano desapareceu na tarde de 2 de julho de 2025, na cidade da Beira.
De acordo com o relato dos familiares, o político seguia numa motorizada de transporte de passageiros quando foi intercetado por homens armados nas proximidades do Cemitério Santa Isabel.
Ainda segundo a mesma versão, os indivíduos obrigaram Vitano Singano a abandonar a motorizada e introduziram-no numa viatura desconhecida. Desde então, não voltou a ser visto.
Nas horas seguintes, familiares deslocaram-se a diversas esquadras da Polícia à procura de informações, mas afirmam não ter obtido esclarecimentos sobre o seu paradeiro.
Posição das autoridades
Ao longo dos últimos doze meses, a Polícia da República de Moçambique (PRM) declarou, em diferentes ocasiões, que as investigações permanecem em curso.
Até ao momento, não foram divulgadas informações públicas sobre a identificação de suspeitos, detenções relacionadas com o caso, linhas de investigação, resultados periciais ou qualquer informação sobre o paradeiro de Vitano Singano.
Em julho de 2025, dirigentes da Revolução Democrática levantaram suspeitas sobre um eventual envolvimento de agentes do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) no desaparecimento. No entanto, essas alegações não foram confirmadas pelas autoridades nem sustentadas publicamente por elementos de prova.
Apelo da família
No âmbito da monitoria realizada pela Plataforma DECIDE, a esposa de Vitano Singano, Cidália Paulino, foi entrevistada no dia 26 de junho de 2026.
Segundo o documento, Cidália afirmou que a família pretende que o Governo Provincial de Sofala contribua para o esclarecimento do caso e recordou que foi apresentada uma queixa junto da Procuradoria-Geral da República, sem que, até ao momento, tenham recebido informações sobre o andamento das investigações.
A esposa do dirigente declarou ainda que, desde o desaparecimento, a família nunca mais teve qualquer contacto com Vitano Singano e continua a exigir justiça e esclarecimentos sobre o seu paradeiro.
Segundo Cidália Paulino, a ausência do marido provocou profundas consequências emocionais, económicas e sociais para toda a família, sendo a angústia provocada pela falta de respostas das instituições o sentimento predominante.
Posição da Revolução Democrática
A direção da Revolução Democrática afirmou igualmente à Plataforma DECIDE que continua sem qualquer informação oficial sobre o paradeiro do seu presidente.
De acordo com dirigentes provinciais do partido, nenhuma entidade comunicou formalmente os resultados das investigações realizadas durante este período.
A formação política defende que o caso deve continuar a ser investigado até ao seu completo esclarecimento.
Perspetiva dos direitos humanos
A Plataforma DECIDE considera que o desaparecimento de uma pessoa coloca em causa diversos direitos fundamentais protegidos pela Constituição da República de Moçambique e por instrumentos internacionais de direitos humanos ratificados pelo Estado moçambicano.
Entre esses direitos destacam-se o direito à vida, à liberdade, à segurança pessoal, ao acesso à justiça e o direito dos familiares de conhecerem a verdade sobre o destino da pessoa desaparecida.
Segundo a organização, estes direitos encontram-se igualmente previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e na Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos.
O documento refere ainda que, embora Moçambique não seja parte de todos os instrumentos internacionais especializados, a Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados constitui uma referência relevante quanto às obrigações dos Estados na prevenção, investigação e esclarecimento destes casos.
A Plataforma DECIDE salienta que, apesar de ainda não existirem elementos públicos suficientes para qualificar juridicamente o caso como um desaparecimento forçado nos termos do direito internacional, a ausência de informações oficiais reforça a obrigação das autoridades de conduzirem uma investigação célere, independente, imparcial e eficaz.
A organização defende igualmente que as autoridades devem prestar informações regulares e transparentes aos familiares, considerando esse procedimento parte integrante do direito à verdade e à justiça.
Na conclusão da análise, a Plataforma DECIDE considera que a falta de respostas continua a alimentar a preocupação da família, da Revolução Democrática e de vários setores da sociedade civil, defendendo que o esclarecimento do caso constitui uma responsabilidade do Estado e um importante teste à capacidade das instituições de garantir justiça, transparência e proteção dos direitos fundamentais.